Até quando a série PR continuará sendo publicada?

Quando a série “Perry Rhodan” foi criada, em 1961, tanto seus autores quanto a editora esperavam que ela tivesse algo entre trinta e cinquenta episódios, que era o tamanho normal da maioria das séries que eram publicadas na época na Alemanha. Muito raramente alguma série passava dos cem episódios, e dessa forma era perfeitamente plausível imaginar que “Perry Rhodan” seria mais uma série com início e fim bem definidos, que logo seria substituída por outra… É até irônico pensar nisso hoje, já que a série é famosa atualmente por ser a maior “história sem fim” de ficção científica de todos os tempos, sendo publicada ininterruptamente desde aquele longínquo mês de setembro de 1961… Seu imenso sucesso foi uma surpresa para seus criadores, que com o tempo acabaram se acostumando com a ideia de que “Perry Rhodan” poderia ser algo contínuo, sem um final definido. Mas será que em algum momento tanto eles quanto a editora pensaram na possibilidade de cancelar a série?

Na verdade tal possibilidade foi cogitada seriamente no início dos anos 80 por William Voltz, que foi o coordenador-geral da série entre 1974 e 1984. Nesse período ele criou as sinopses básicas dos episódios 674 a 1211, tendo sido responsável pela criação de alguns dos ciclos mais memoráveis de toda a série, bem como de conceitos que são fundamentais até hoje para o universo rhodaniano, como a luta eterna entre os cosmocratas e os caotarcas e a existência dos “cosmonucleotídeos”, que formam uma trama invisível de energia psiônica que permeia todo o universo. Durante a primeira convenção mundial (“Weltcon”) da série, organizada pela editora VPM em 1980 na cidade de Mannheim para comemorar a publicação do milésimo episódio de “Perry Rhodan”, Voltz fez uma lendária palestra na qual detalhou sua visão para a série até o episódio 1500, que, segundo ele, seria o momento perfeito para concluir toda a saga de Perry Rhodan, o “herdeiro do universo”…

Segundo Voltz, o modelo de “cascas de cebola” da evolução cósmica, que explica a evolução da vida no universo desde as formas mais simples até as superinteligências e os cosmocratas/caotarcas, mostra claramente até onde a série poderia chegar em termos de possibilidades narrativas. Esse modelo, que foi plenamente explicado no episódio 1000, é composto pelos seguintes níveis evolucionários:

1) Matéria inanimada na forma de planetas, estrelas e galáxias: a vida orgânica ainda não existe.
2) Formas de vida primitivas: plantas e animais sem organização social nem inteligência.
3) Vida inteligente que ainda não deixou seu planeta. Este nível abrange sociedades caçadoras-coletoras, agrárias e industriais.
4) Vida inteligente que domina a tecnologia das viagens interplanetárias.
5) Vida inteligente que domina a tecnologia das viagens interestelares.
6) Vida inteligente que domina a tecnologia das viagens intergaláticas.
7) Vida inteligente que atingiu um nível imaterial, tornando-se uma superinteligência positiva ou negativa.
8) Superinteligência (e respectiva esfera de poder) que atingiu um nível superior, tornando-se uma fonte de matéria ou um destruidor de matéria.
9) Nível evolucionário máximo: cosmocrata (originário de uma fonte de matéria) ou caotarca (originário de um destruidor de matéria).

Ao conceber o episódio 1000 e os ciclos subsequentes, Voltz percebeu que sua temática básica seria ligada aos níveis 7, 8 e 9 da escala, o que significava que não haveria possibilidade de ir além disso no futuro… Outro limite para o desenvolvimento futuro da série foi criado com a introdução das Três Perguntas Fundamentais dos cosmocratas, que tiveram uma importância fundamental nos ciclos “A Organização Hanseática Cósmica” (episódios 1000 a 1099), “A Armada Infinita” (episódios 1100 a 1199) e “Os Cronofósseis” (episódios 1200 a 1299). Essas perguntas são as seguintes:

1) O que é o Rubi de Gelo?
2) Onde começa e onde termina a Armada Infinita?
3) Quem criou a Lei, e qual é seu conteúdo?

As duas primeiras perguntas foram respondidas até o episódio 1200, e Voltz imaginava que a resolução da terceira pergunta, programada para acontecer no episódio 1500, significaria o fim da própria série, pois depois disso os autores simplesmente se veriam num “beco sem saída” criativo… Porém a morte de Voltz, ocorrida apenas quatro anos após a convenção de Mannheim, fez com que a editora VPM ordenasse mudanças drásticas nos rumos futuros da série, já que ela pretendia continuar publicando-a indefinidamente… Algumas dessas mudanças foram as seguintes:

– Como a Terceira Pergunta Fundamental deveria continuar sendo um mistério, no ciclo “Os Cronofósseis” Perry Rhodan recusa-se a receber sua resposta quando chega à Montanha da Criação (a base do cosmonucleotídeo Triicle 9), pois percebe que esse conhecimento poderia destruir sua consciência. Curiosamente esta pergunta foi respondida parcialmente no episódio 1744, que deixou a entender que a “Lei” seria o conjunto de leis físicas que, em sua totalidade, garante a estabilidade e o equilíbrio dos diversos universos que compõem o multiverso. E no ciclo “O Tribunal Atópico” (episódios 2700 a 2799) foi descoberta a existência de outras Perguntas Fundamentais, que parecem estar relacionadas às perguntas originais:

1) O que ocorre atrás do horizonte da Lei?
2) Em qual lado do espelho da Criação se encontra aquele que pergunta?
3) A quem pertence o tempo?

– Para evitar que a temática das superinteligências e dos cosmocratas/caotarcas continuasse dominando a série, a partir do episódio 1400 as histórias voltaram a ser focadas primariamente nos níveis 5 e 6 da escala do modelo de “cascas de cebola”, o que significa que a série voltou a ter uma dinâmica semelhante à de seus primeiros ciclos. Posteriormente as temáticas mais complexas voltariam a ser abordadas na série, porém de forma mais pontual e gradativa. O modelo de “cascas de cebola” só seria atualizado no episódio 2831, que confirmou a existência de outros níveis na escala, pois mostrou que os cosmocratas e os caotarcas podem continuar evoluindo até tornar-se seres completamente incompreensíveis, praticamente “desconectados” da realidade do universo einsteiniano.

Todas essas mudanças contribuíram para que a série continuasse sendo publicada, já que evitaram as armadilhas narrativas que Voltz havia previsto em 1980. Dessa forma a série consolidou definitivamente seu status de “história sem fim”, e desde então a VPM garante que ela só será cancelada se suas vendas caírem para patamares que não justifiquem mais sua publicação. Como sua tiragem (e também as vendas de sua versão digital) continua em níveis bastante confortáveis, mesmo após 55 anos de publicação ininterrupta, é possível dizer que a série provavelmente ainda continuará a ser publicada por mais algumas décadas. Nada mal para uma série cujo potencial foi estimado originalmente em apenas cinquenta volumes…

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2 Respostas to “Até quando a série PR continuará sendo publicada?”

  1. Alexei Davitarsvili Says:

    Vou fazer um comentário pouco lisonjeiro sobre PR: Como muita gente já se queixou, ele é perfeito demais…

  2. Enock de Oliveira Moura Says:

    Como sou um leitor de longuíssima data, tenho duvidas de que viverei para ler os volumes de 2.000 em diante.
    Espero que a SSPG continue traduzindo e editando essa série maravilhosa, pois eu a estou seguindo desde 1973.

    Obrigado, continuem sempre em frente.

    Enock de O. Moura.

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