Relato detalhado da reunião na sede da editora alemã de PR

No início de abril de 2009 estive em Rastatt, na Alemanha, onde me encontrei na sede da VPM com Klaus N. Frick, o redator-chefe da série “Perry Rhodan”, para discutir com ele as perspectivas futuras da edição brasileira da série. Bem, aqui está um relato detalhado do que aconteceu na reunião, ocorrida na manhã de 8 de abril:

Cheguei à VPM às 9:50, dez minutos antes do horário marcado para o início da reunião. Primeiramente o Klaus Frick me mostrou os escritórios da redação, onde ele, o Klaus Bollhöfener, o Björn Berenz, a Bettina Lang e a Brigitte Thumm trabalham. Conversei um pouco com todos eles, que se mostraram bastante acessíveis e simpáticos.

Na reunião propriamente dita, comecei fazendo um resumo do nosso plano de recuperação da série, inclusive contando tudo que aconteceu desde minha última reunião com eles, em outubro de 2000. Detalhei a origem e as características dos nossos problemas, contei a história do fã investidor (que fará um aporte de capital na SSPG) e concluí dizendo que agora pretendemos fazer o que já deveria ter sido feito há muito tempo: distribuição e promoção em larga escala, porém de forma bem planejada. Também mostrei-lhe que, apesar da edição brasileira ser essencialmente um projeto de fãs, ela sempre foi feita com o maior cuidado e com a maior qualidade, pois não quisemos repetir os erros da Vector, que foi um exemplo do que NÃO deve ser feito.

Em relação à Vector (obs.: a editora que publicou os episódios 1800 a 1804 nos EUA em 1997/98), o Frick disse que o John Foyt foi 100% fã e 0% homem de negócios, pois ele contratou uma distribuidora muito limitada, fez uma tiragem de mais de 20.000 exemplares e amargou um encalhe de mais de 95%… Um de seus erros foi não perceber que, no mercado norte-americano, a série PR seria confundida com quadrinhos, o que foi um desastre mercadológico, já que ela errou totalmente seu público-alvo por causa disso. Talvez se a série tivesse voltado no formato de livro ela teria vingado nos EUA, já que as estratégias de distribuição e promoção teriam sido muito mais adequadas ao seu público-alvo.

Bem, chegamos aqui à principal dúvida do Frick em relação ao nosso plano: considerando-se toda a história da série no Brasil, ele achou muito arriscado querermos lançá-la em bancas com uma alta tiragem. Na opinião dele teremos um encalhe muito grande, pois boa parte dos fãs que lia a série nos anos 70/80 provavelmente já perdeu o interesse em acompanhá-la semana a semana. Segundo ele, na Alemanha é comum a pessoa começar a ler PR com 13, 14 anos e abandonar a série depois de 25 ou 30 anos, devido às mudanças naturais de gostos e prioridades. Segundo esse raciocínio, apenas uma pequena parte dos antigos fãs terá um interesse real em voltar a lê-la. Além disso, bancas são mais apropriadas para produtos essencialmente descartáveis, como jornais e revistas, e, como nossa edição tem um aspecto mais “duradouro”, dessa forma talvez nossos livros seriam colocados no lugar errado.

Sendo assim, o foco deve ser na conquista de novos leitores, pois sem isso provavelmente estacionaremos nos 2.000 ou 3.000 livros vendidos por edição, com o agravante de que, para conseguirmos vender isso em bancas, teríamos que ter uma tiragem bem maior que essa, de talvez 10.000 exemplares (para garantir uma boa cobertura geográfica) ou mais. Ou seja, não compensaria vender 2.000/3.000 livros por edição e amargar ao mesmo tempo um encalhe de 8.000/7.000… Como exemplo, a edição alemã vende em média 86.000 exemplares, mas para atingir esse patamar de vendas ela precisa imprimir e distribuir 135.000 exemplares…

Dessa forma ele fez as seguintes sugestões:

– Focar a distribuição não em bancas, mas sim em livrarias. Assim seríamos mais eficientes, pois poderíamos fazer uma tiragem menor e deixar os livros por um tempo maior nas prateleiras, sendo vendidos aos poucos tanto para os antigos quanto para os novos leitores.

– Isso implicaria num segundo ponto: tornar nosso livro “mais livro” ainda, ou seja, talvez publicando quatro histórias por volume, para colocá-lo apenas em livrarias e deixá-lo lá por um longo tempo (assim como é feito com os volumes de prata). Isso tornaria a impressão, a distribuição e até mesmo a promoção bem mais eficientes do que nossa ideia original de colocar os primeiros livros do “Concílio” em bancas. Essa mudança também tornaria mais fácil a venda através de sites como a Amazon.

– Talvez pensar na publicação das minisséries de livros de bolso, como “Andrômeda”, “Lemúria”, “Perry Rhodan Action”, etc., já que elas são feitas justamente com esse objetivo: ficar por um longo tempo nas livrarias para atrair novos leitores, com a vantagem de que o encalhe é menor e suas histórias agradam tanto aos antigos leitores quanto àqueles que nunca ouviram falar na série.

– Talvez publicar também alguns dos quadrinhos, que poderiam ser vendidos em lojas especializadas e que normalmente têm um apelo excepcional com o público jovem, sendo um ótimo “atrator” de novos leitores. Isso parece ser bem verdadeiro, já que as convenções de quadrinhos no Brasil chegam a ter 20.000 participantes, enquanto as de ficção científica tradicional raramente passam dos 500…

É curioso perceber que várias das sugestões acima já estavam sendo consideradas por nós há algum tempo, como a distribuição intensiva via livrarias e a publicação das minisséries e dos quadrinhos, mas ouvir isso diretamente do Frick certamente dá um peso bem maior a elas…

Aqui chegamos a outro ponto no qual concordamos: os jovens de hoje são muito visuais, e a concorrência com a TV a cabo, os “videogames” e a Internet praticamente matou o mercado de livros seriados na Alemanha nas últimas duas décadas. Para garantir a sobrevivência de PR no longo prazo, tanto aqui como lá, a conquista desses novos leitores é essencial, e os quatro pontos acima talvez sejam fundamentais para isso.

Uma curiosidade: quando perguntei-lhe sobre a situação do novo filme, que seria o produto com maior potencial para atrair novos leitores, ele começou a rir, pois disse que aquela era a pergunta que ele mais tinha ouvido nos últimos tempos. A resposta: ainda não há investidores interessados no projeto da Casascania, que é a produtora que comprou os direitos de filmagem da VPM há alguns anos atrás.

Bem, os últimos pontos da reunião foram em relação ao “Projeto Traduções” (que pretende traduzir do 537 ao 649) e à digitalização dos volumes da Ediouro, que já passou do episódio 370. Em relação a isso eu disse-lhe o seguinte:

– Isso já está acontecendo e não vai parar, pois está sendo feito por grupos independentes da SSPG;

– Estes grupos já disseram que não pretendem competir conosco, apenas preencher nossas lacunas, já que não temos capacidade de fazer tudo na velocidade adequada; além disso a própria Ediouro não se lembra mais que já editou PR um dia;

– Como poderíamos integrar esses esforços à SSPG legalmente? Será que poderíamos futuramente pegar esses livros traduzidos/digitalizados, pagar os devidos direitos autorais, revisá-los e lançá-los oficialmente como “e-books” ou livros impressos?

O Frick respondeu que a solução que eles encontraram contra a pirataria foi lançar versões oficiais e de qualidade dos “e-books”, já que os “e-books” piratas dos livros alemães tendem a ser de má qualidade. Em relação ao nosso caso específico, ele gostou da ideia que propus, só que teríamos antes que entrar em contato com os tradutores originais (no caso dos livros da Ediouro) para fazer um acordo com eles em relação aos direitos autorais. Em relação aos livros 537-649, como o Projeto Traduções não tem fins lucrativos e é composto por um grupo fechado de fãs, se essas traduções não “vazarem”, tecnicamente elas não são inteiramente ilegais, apenas eticamente questionáveis (por não pagarem direitos autorais). Ele também disse que, se quisermos usar essas traduções no futuro legalmente, bastaria também somente pagar os devidos direitos autorais. Em suma: pagando os “royalties” à VPM e assegurando que os direitos dos tradutores sejam devidamente resguardados, a SSPG tem plena liberdade de usar esses materiais oficialmente no futuro (o que é exatamente o que o pessoal do Projeto Traduções já nos propôs, ou seja, de nos passar futuramente essas traduções para publicação oficial). Esses esclarecimentos do Frick me deixaram mais tranquilo, pois isso significa que poderemos trabalhar de forma complementar com as equipes desses projetos, desde, é claro, que eles não fujam dos seus propósitos iniciais.

Mudando um pouco de assunto, também falei da nossa vergonha tanto dos pagamentos atrasados quanto do fato da edição ser tão pequena. Ele me disse que, há muito tempo atrás, eles realmente ficaram chateados com os nossos atrasos nos pagamentos, mas que agora isso já passou. E ele falou que o orgulho que ele sente da nossa edição, de poder pegar um livro nosso e dizer “A série também está no Brasil!”, é muito mais importante que o dinheiro, e é disso que devemos nos lembrar sempre. Nas palavras dele, os problemas financeiros são momentâneos, mas os livros são o que realmente importa, são um legado eterno. Fiquei até emocionado nesse momento, pois ele falou com bastante convicção…

Uma curiosidade: atualmente apenas seis pessoas trabalham na VPM com a série, em três salas diferentes. No passado eram muito mais pessoas, pois a série tinha uma importância relativa muito grande para a editora, mas hoje ela é apenas “aquela antiga série de livrinhos”, já que o foco atual da VPM são revistas populares para o público feminino (como aquelas revistas de fofocas e de novelas brasileiras de dois e três reais). Havia pilhas e pilhas dessas revistas na sala onde nos reunimos… Porém ele me disse que não vislumbra nenhuma possibilidade da série ser cancelada, já que suas vendas ainda são consideradas ótimas pela direção da editora. Essa possibilidade só começaria a ser considerada caso as vendas caíssem para menos de 30.000 exemplares…

Por fim ele me disse que nos enviará em breve o rascunho de um novo contrato entre a VPM e a SSPG, cujos detalhes poderemos prosseguir discutindo por e-mail.

Depois da reunião almoçamos no bandejão da VPM, onde tivemos uma conversa mais informal. Vocês sabiam que ele já viajou por toda a África apenas com uma mochila nas costas? E que ele escreveu um livro contando esta experiência? O cara é realmente multifacetado…

Bem, creio que seja o bastante… Achei que o resultado da reunião foi muito bom, e as sugestões do Frick realmente foram bem interessantes. Como ele é um fã da série que acabou sendo “promovido” a editor, o tom da reunião foi bastante cordial, e pude perceber realmente o quanto ele se orgulha do interesse dos brasileiros pela série. Gostaria de ressaltar que suas sugestões não foram impositivas, e que dessa forma temos liberdade para aceitá-las ou não. Já estamos analisando cada uma de suas sugestões para o retorno da série, e esperamos divulgar novidades mais concretas em nosso site (www.perry-rhodan.com.br) tão logo seja possível. Obviamente gostaríamos de lançar tudo que ele sugeriu, mas precisamos fazer antes algumas análises de viabilidade para verificar quais itens poderiam manter-se no mercado brasileiro de forma sustentável.

Tirei várias fotos da minha visita à VPM, e algumas delas estão logo abaixo. Só peço desculpas pela luz “estourada” de várias fotos, já que o ambiente da reunião não estava tão claro assim (acho que foi um problema da minha câmera).

Fachada da VPM

Fachada da VPM

Outra visão da VPM

Outra visão da VPM

Bettina Lang e Klaus Frick em seu ambiente de trabalho

Bettina Lang e Klaus Frick em seu ambiente de trabalho

Klaus Frick e Bettina Lang dando uma olhada no planejamento do ciclo "Bardioc"

Klaus Frick e Bettina Lang conferindo o planejamento do ciclo "Bardioc"

Klaus Frick me explicando alguns detalhes do próximo ciclo da série

Klaus Frick me explicando alguns detalhes do próximo ciclo da série

O editor-chefe da edição alemã e o editor-assistente da edição brasileira

O editor-chefe da edição alemã e o editor-assistente da edição brasileira

Klaus Frick em sua mesa de trabalho

Klaus Frick em sua mesa de trabalho

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11 Respostas to “Relato detalhado da reunião na sede da editora alemã de PR”

  1. DIO Says:

    Achei excelente as idéias do Klaus, e minhas opiniões são muito parecidas com as deles. Espero que a SSPG venha a adota-las em sua maioria. Na comunidade no Orkut, eu e outros membros já haviamos defendidos em ter um certo nº de livrarias/pontos-de-vendas (+ou- umas 30) em cidades estratégicas, e que seja feita uma veiculação/propaganda intensa destes pontos-de-vendas.
    E espero que venham os Romances Planetários (escolham o período que narram as aventuras do Atlan quando vivia na Terra).
    E fica minha torcida que a publicação retorne o mais brevemente…

  2. Altair Says:

    César!

    também acho a idéia de um livro com três ou quatro histórias muito boa. Nós já discutimos isto na antiga lista do yahoo… Me preocupa apenas o valor final do volume! Acho que o foco deve ser a série principal, todavia, como a experiência do klaus é muito importante, a SSPG deve analisar profundamente todas as sugestões, levando em conta o mercado brasileiro!

    Mais uma vez, parabéns pelo blog!

  3. Sérgio Luís Says:

    Espero que o que escreveu aqui sobre podermos vir a trabalhar em conjunto se torne realidade pois acho que só o trabalho conjunto pode ajudar tanto vcs como nós do projeto e de minha parte posso te garantir que nao iremos mudar o objetivo por nós trassados numca e se der vou ver como ativar novamente o fã clube para haver mais interaçao entre os varios leitores tanto antigos como novos da série

  4. Sérgio Luís Says:

    Se até o momento tem demorado a revisão é mais por causa de querer dar as pessoas uma traduçao com alto grau de revisao evitando que no futuro aja muinto trabalho que vcs tenham de fazer caso venhamos a entrar num acordo

  5. César Maciel Says:

    Sérgio, sempre quisemos trabalhar em conjunto com o projeto, só que sem uma posição oficial da VPM não podíamos fazer nada… Creio que daqui em diante poderemos trocar experiências sem problemas.

  6. Marcos Roberto Says:

    César,

    Acho muito interessante a idéia de 4 livros em um pois ai mesmo que saisse um livro só por mês no início, teriamos no mínimo quatro estorias por mes. Aguardo para ver o que será decidido, mas creio que mesmo que este novo formato seja adotado o ciclo atual sera finalizado da forma atual por questões de compatibilidade com os outros livros já lançados do ciclo, não seria isto?

    []’s
    Marcos

  7. Cilas Says:

    César, eu não sei como funciona exatamente e como são as nuances de um projeto destes, mas tenho algumas sugestões, de inicio podem até ser absurdas, mas não custa tentar, primeiro, qual que é o imposto de importação de livros? li nalgum lugar que era zero, se for tenho uma outra questão, na alemanha publica-se em só um idioma? tive contato com um parente de minha esposa que mora lá e uma alemã namorada dele falou que fala-se quatro idiomas no país, sendo que o brasil torna-se um caso raro no mundo de um idioma ser entendido no país inteiro, mas o interessante seria que se fosse possivel as edições de prata, ouro, reedição não poderia ter uma relação de produção maior com o mesmo custo se fossem feitas pela vpm? apenas imprimiriam uma parte do material deles no nosso idioma, é lógico que isso ia demandar um projeto bem eficiente, porque teria uma tradução adiantada e um investimento razoavel porque a linha de lançamentos deles é mais rápida, mas vcs poderiam ter mil exemplares pelo preço de 500 se tal coisa fosse possivel com as depesas de envio, mas não custa perguntar e supor.

  8. Márcio Inácio Silva Says:

    Marcos,

    E o que têm a haver compatibilidade? O livro só ficaria um pouco mais grosso.

    César e Rodrigo,

    Caros amigos, também gostei muito das perspectivas e do resultado da reunião.

    Acho que o principal disto tudo é que agora temos uma concreta volta da série, mas, como já havia dito: Há muito tempo o que me preocupa não é o retorno da serie e sim o sucesso de vocês. Tanto profissionalmente quanto financeiramente. Espero que agora isto se concretize juntamente com estes novos planos pois, tenho certeza que ninguém mais do que vocês merecem.

    Abraços e Saudações Rhodanianas.

  9. Sérgio Luis Says:

    Eu por mim estou disposto a pagar 4 volumes seus por mes, mas desta vez César ouça os outros interessados em querer te ajudar e não leve como uma ofença mas uma tentativa de ajudar a vcs ai a sair do vermelho e se estabilizarem.Além disto posso ver com mais algumas pessoas o retorno do fã clube envolvendo todos os grupos q discutem separadamente hoje a série

  10. Sérgio Luis Says:

    Vejo com boms olhos vcs quererem voltar com o numero 1 ao 536 tbm pois é lá que se estao formando novos leitores e fãs da série e enquanto isto ainda vamos tentar aprimorar o projeto traduçao o melhor possivel

  11. César Maciel Says:

    Marcos Roberto, ainda estamos analisando a questão do formato dos volumes, mas em princípio gostaríamos de manter o padrão atual pelo menos até o final do ciclo “Bardioc”.

    Cilas, sua ideia em princípio é boa, já que o imposto de importação de livros realmente é zero. Contudo, a impressão dos livros em português teria que ser feita num lote de produção separado dos outros livros, já que os fotolitos seriam diferentes. Dessa forma o preço seria igual ao que pagamos aqui no Brasil… Além disso o custo de envio dos livros da Alemanha para o Brasil simplesmente anularia qualquer possível economia feita durante a impressão dos livros lá. E, como se tudo isso não bastasse, é necessário um contato constante entre a editora e a gráfica durante o processo de impressão dos livros, já que correções nas matrizes de impressão são feitas até o último instante! Como a VPM fica a 9.200 km da SSPG, esse processo de correções ficaria muito mais difícil…

    Em relação às línguas da Alemanha, o alemão é universal, mas há muita variação dialetal entre as diversas regiões do país. Provavelmente as pessoas com quem você conversou estavam se referindo a esses dialetos, e não a línguas específicas.

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